Precipício Mental - Insensatez

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Furtacor

    Na calada da madrugada, simplesmente escrevo porque preciso de uma forma de libertação. Preciso inocular nas letrinhas paralelas aquele sentimento que insiste em resistir à resignação.
   Junto à luz que invade o quarto escuro em um tom azul, o brilho convexo do vidro das cinco gotinhas mágicas reluz. As cinco gotinhas marcadas pela promessa de levar à escuridão de uma caixinha de pandora toda a melancolia que aflige.
   A dor continua a mesma. Com stand by, o quarto passa de azul à roxo em um de repente inesperado. Os globos castanhos se cristalizam, fazendo escorrer uma angústia petrificada, que ocupa no peito o espaço de um punhal.
  Afasto a cortina na espera de que um feixe de luz invada o escuro, mas ao olhar lá fora as luzes da cidade que dorme, a dor da derrota parece maior que a vontade de viver.
  Então vejo a figura de um ser quase divino... Metade anjo, metade humano. Minhas mãos são afagadas com carícias de amor e algumas palavras aveludadas fazem o dia amanhecer em cores.

... E o dia seguinte é sempre melhor.

terça-feira, 1 de março de 2011

Sonho de umas noites.


O vazio do olhar combinava perfeitamente com o do coração, frio como gelo. Ela deitava à noite com a certeza de que em algum momento acordaria com o pesadelo de sempre e, então, acenderia a luz na esperança de encontrá-lo de pé em frente à sua cama, dizendo que subiu pela janela porque não aguentava de saudade; mas a única imagem que avistava era seu armário branco de maçanetas rosa.
Voltou a dormir com a mesma expressão fria com a qual acordara e com a mesma dor silenciosa que se acentuava na madrugada. Dessa vez foi diferente, uma novidade tomou conta de sua noite: Duas mãos se encontravam, dois sorrisos se fundiam, duas felicidades cintilavam. A ausência não se fazia presente e a saudade parecia não existir.
A ocorrência ocasional fez seu coração bater como martelete, surpreso. Sem palavras, suas pernas não obedeciam a ordem de virar as costas e sair correndo, e seu coração a empurrava para frente, impulsionado pela vontade. Enquanto sua mente só pensava em fugir, lutando contra seu coração, permaneceu imóvel, comtemplando a imagem daquele homem de mochila com quem tanto sonhou.
 Ele começou a andar em sua direção, sem expressão. Os passos eram lentos, como se sentisse medo, e enquanto se aproximava, abria um sorriso. Ele pegou em suas mão e...

- Levante rápido, senão vai se atrasar!

Se arrumou e, de vestido, abriu a porta e saiu.
Ninguém sabe onde ela foi, mas foi, deixando para trás a lucidez.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Distante...

O meu, o seu, sem o nosso. Foi do jeito que tinha que ser! Um pouco mais, minguava; um pouco menos, estragava. A intensidade perfeita, com um fluxo invasivo. A loucura era instável e as palavras, impulsivas.
O sentimento foi esse.
Verbos intransitivos que - na verdade - necessitavam de complemento. Complementos esses, que hoje em dia são meu refúgio: Não vi, não ouvi, não sei.
Agora distante, a gente entende melhor:  Não adianta punhal na presença de revólver.
O subjetivo faz sentido sem sequer se pronunciar, usurpando o silêncio e deixando um traço de dúvida.

Foi tudo uso e abuso do acaso.

domingo, 26 de setembro de 2010

Descoberta.

Éramos um só e nada mais.
Dois em um, fusão complexa, união perfeita entre extremos.
O quente e o frio, o bom e o mau, o claro e o escuro, a tristeza e a legria... Todos, em transito e órbita perfeita.
Nosso constante estado de periélio me cegou. A luz intensa, que afagava minha visão, não me deixou enxergar que o pra sempre não era o caminho que seguíamos.
Distante!
Aos poucos, o inverno ia chegando, as folhas iam caindo. A ilusão permanecia a me cegar.
Você quis me dizer, o tempo todo, que, na verdade, aquilo era mentira. Queria me contar como era, como foi... a verdade intrínseca.
Talvez a culpada seja mesmo eu!

Descobri da pior forma que o "pra sempre" , enfim, não é caminho certo. É meio caminho andado.
Ninguém chega lá, não.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Breve e para alguém.

As pessoas crescem mais rápido do que se imagina. Sentimentos, anseios e desejos mudam juntamente com esse crescimento, em uma drástica metamorfose; ou eles podem apenas amadurecer... Quando algo é de verdade, não acaba.


"Crescer é mais importante do que estagnar com um único foco."
E eu nunca mais esqueci.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O quanto eu te assusto?

Um olhar.
Você... Sempre misteriosa e ilegível, uma incógnita. Sempre se escondendo atrás de historinhas, anedotas e piadas. Fingindo ser o que não é, o que nunca foi e nem quer ser. Sempre fala tudo, sem dizer nada.
Não preciso de palavras, seus olhos lampejam todo seu sentimento, todo seu interior. Em poucos segundos, penetro no seu olhar - que me consome. Apesar de indecifráveis, consigo ver todas as perguntas... e as minhas respostas.
Eu sorrio, você cora.
Vejo tudo, sem saber nada; sem poder saber.
O mistério, em ti, assume um papel diferente em seus olhos quando de encontro aos meus. Eu vejo e você sabe, e me permite ver, mas não entendo nada.  
Você sorri, eu finjo dar de ombros.
Você parece assustada, mas fixa o olhar no meu, fazendo segundos virarem horas, horas virarem reflexões e reflexões virarem medo. Medo meu, medo seu. Meu medo de saber, nosso medo de ser, seu medo de querer.
Então, me diga...O quanto isso te assusta?

Eu deveria te esquecer.

Estavam os dois debaixo da luz do único poste que iluminava a rua. De longe, parecia tudo bem; mas na verdade, eles brigavam como duas crianças, de forma quase silenciosa. De cenho franzido, ele murmurava um discurso, enquanto ela fazia careta.
- A culpa disso foi toda sua! - disse ele ao final, sem medir o tom.
Ela, desacostumada com aquilo, enfureceu-se de um forma atípica.
- A culpa é minha? Você me fez acreditar em suas palavras, quis me iludir e me magoar. Mas sabe qual é a verdade? Eu nunca acreditei em você. Toda a tristeza foi por conta de sua intenção inescrupulosa e não por eu ter realmente acreditado nisso tudo. - seus olhos enchiam-se de lágrimas, enquanto jorrava palavras, que se formavam em sua voz grave e rouca.
Ele pegou-a pelos braços, apertando-os como torniquetes, perdendo totalmente o juízo. Ela fuzilou-o com os olhos, contendo um grito de dor.
- O que você disse? - disse ele, entredentes. Os olhos ardendo em fúria.
- Me solta agora, você está me machucando! - ela ofegou.
Tudo começou a girar em sua cabeça, ela sentia suas mãos formigarem enquanto o fitava com expressão de desespero. Um filme passou em sua mente: Tudo o que ele disse, todos os momentos de carinho, todo o amor que ela sentia, tudo! Tudo estraçalhaço, esmagado, destruido...
Foi quando, de repente, ele a soltou... O súbito jorro de sangue em suas veias foi quase doloroso. Ela suspirou e se afastou cambaleando, sem forças para reagir.
Ele caiu em prantos, desesperadamente. Tentava pronunciar palavras, mas elas saiam ininteligíveis. Seu choro interrompia toda e qualquer frase que tentava dizer. Ela, sem saber o que fazer, começou a chorar junto dele. Os dois choravam, como dois bebês.
Ninguém soube, ninguém ouviu. Eram três da manhã, não havia ninguém na rua. Em especial, naquela rua, que era, independente da hora, extremamente deserta. Não havia uma alma, uma casa... Só casebres abandonados e lojas fechadas por conta da hora.
Foi, então, em meio às lágrimas, sentados no meio-fio, que ele conseguiu pronunciar uma frase, entre soluços. Não exatamente o que queria, nem do jeito que queria, mas foi tudo o que precisava ser dito.
- Você é tudo que eu quero e sempre quis, e nada mais importa.

Ela sorriu.